CINCO ÁLBUNS DE METAL QUE MERECEM SER OUVIDOS (DE NOVO).

Falar de música é falar de sentimentos. E na música, como expressamos a angústia, a fúria, a revolta, uma paciência que aos poucos se substitui por desprezo, a solidão, um grito contido, o medo? Há também aqueles momentos de bela estranheza, de um ódio que se faz bonito ao seu modo, de uma paixão que se esperou viver e não viveu, da morte cotidiana, e da vida sem graça rotineira que alimenta sua antítese explosiva e incrivelmente calorosa. Há ainda aqueles lugares que se busca alcançar no interior da mente, em que a música se faz como a chave de milhões de portais desconhecidos, mas, ao mesmo tempo, nossos.

O Heavy Metal se torna, então, necessário, indispensável. Um canal para a expressão de um eu contido, recôndito em uma pequenez infinita que clama por ser explorada. Metal é sim falar de extremos, de sentimentos extremos. No entanto, é também mera diversão, um bate-cabeça despretensioso e amigável, compartilhado. Heavy Metal é tudo isso.

Com os devidos agradecimentos ao Marcos Sagaz, que cedeu um espaço ao Heavy Metal em seu blog, deixo com vocês minha humilde opinião sobre cinco álbuns do gênero que merecem nossos ouvidos, atentos ouvidos. Se os já conhece, acho sempre válida uma segunda visita. Se não, delicie-se.

SAVATAGE – POETS AND MADMEN

Se eu tivesse que escolher uma só palavra para descrever este belíssimo álbum do Savatage, eu escolheria “misterioso”. Jon Oliva, com sua gravíssima e pesada voz, comanda essa banda para te levar por uma aventura muito bem elaborada, em um Heavy Metal muito do maduro, direto, objetivo e com riffs de guitarra surpreendentes. Metal de adolescente para longe daqui, afinal de contas trata-se do 12º álbum de uma banda com muitos bons anos de história.

A começar pela intrigante capa, que ajuda a entrar no clima do CD, o encarte nos presenteia com uma história ficcional inspirada no fotógrafo Kevin Carter, que tirou a foto de uma criança prestes a morrer de fome sendo observada por um abutre que aguarda pacientemente por sua morte. A polêmica foto lhe rendeu o melhor prêmio de fotografia do mundo, muitas críticas por não ter ajudado a criança, um avançado quadro de loucura e motivos suficientes para seu suicídio.

Poets and Madmen, cujo conceito é do produtor Paul O’Neill, nos leva para essa viagem pela mente de Kevin Carter. A temática é loucura, indignação hipócrita de uma inércia geral, impotência, ganância, suicídio. Somos levados nessa viagem com uma competência impressionante.

Apesar da genialidade que permeia todo o álbum, uma música se destaca. Seu nome é Morphine Child. São 10 minutos de pura riqueza musical e poética. Muito emocionante. Em minha opinião, consegue resumir magicamente a concepção de todo o álbum. Aqui está um trechinho:

“No regrets                                                                                                                                         If you just forget.                                                                                                                                If a memory is lenient                                                                                                                   You can find it most convenient                                                                                                     So you let it fade                                                                                                                              Till it’s very vague                                                                                                                          Just a silhouette of shadows                                                                                                            But the shadows are still lingering”

METAL CHURCH – METAL CHURCH

Conheci essa banda em um clipe em preto e branco, de madrugada, na MTV. Sim, na MTV, em um tempo que nunca mais voltará, pelo menos não ao que parece. Logo me surpreendi. Fui procurar e simplesmente me apaixonei por este álbum que carrega o próprio nome da banda. Fico muito espantado em ver como essa banda é subestimada, este álbum especificamente.

O som rápido, pesado e agressivo faz parecer que se trata de uma banda padrão de thrash metal dos meados dos anos 80. Porém, o que mais chama a atenção são os vocais agudos, gritados e rasgados de David Wayne. Essa voz é simplesmente única, e garante à banda uma categoria à parte nas infindáveis classificações do Metal. Vale a pena conhecer essa peculiar voz e se surpreender com sua imensa versatilidade, inclusive fazendo um belíssimo e limpo tom na música Gods of Wrath, muito bem trabalhada e mais lenta que o restante das músicas.

Ouço Metal Church e me sinto imergido naquele clipe que mencionei. Em um cenário preto e branco, com o aspecto polonês do pós-guerra, poeira, escuridão e fogo misturado com concreto e ferro desabados. E o som da banda é bem por aí mesmo, apesar de muito bem executado, com uma das melhores e marcantes baterias que já ouvi, e um baixo cru, seco, mas muito inteligente; a guitarra é suja, os pratos são altos e frenéticos.

Enfim, Metal no que pode oferecer de melhor. Um álbum único, emocionante, e muito injustiçado. Pra começar, diria que o melhor primeiro passo seria pela própria música que dá o nome da banda: Metal Church.

 

BLACK SABBATH – CROSS PURPOSES

Falamos aqui do que é, sem dúvida nenhuma, o CD mais subestimado do BS. Não se trata de um clássico, como os discos dos primeiros anos de Ozzy ou Dio, mas se destaca e muito dentre vários outros da banda. Aviso que você não vai encontrar uma música simplesmente genial de tirar o fôlego, mas também não vai encontrar nenhuma música que decepciona, que não dê belos momentos ao seu dia. Escolhi esse CD porque acredito que ele merece, e muito, receber um novo ouvido atento.

Os vocais de Tony Martin são belíssimos, sua voz de barítono é poderosa e dá o tom perfeito para as músicas, se encaixando perfeitamente com o estilo sombrio dominante trazido pelos membros da era auge do BS, Tony Iommi e Geezer Butler. Esse disco, aliás, traz riffs que me fazem recordar bastante os primeiros da banda, com uma pegada mais lenta e pesada.

É simplesmente um excelente álbum de Metal a ser ouvido do início ao fim sem qualquer receio. O ambiente criado pela banda é algo comparável a um marcante filme de suspense que deixa nossos sentidos aflorados ao máximo, deixando para nós um belo refúgio que todos ora ou outra necessitam.

É um exemplo de Metal feito com qualidade, sem frescuras, direto, objetivo, sem virtuosismo. E se quiser um conselho por onde começar, indico a Cross of Thorns e Dying for Love.

DAWNLESS – WINDS OF FATE

O Metal pode ser muito injusto com novas bandas. Dawnless é um belo exemplo disso. A conheci por acaso na internet e descobri que se trata de uma banda suíça que tem uma ridícula média de cinco shows por ano. Um show que eu pagaria muito caro pra assistir.

A banda nasceu nos gelados Alpes Suíços, em um inverno que aparentemente foi muito inspirador e entediante. Sua música é simplesmente encantadora, apaixonada, sincera, despretensiosa. Uma mistura única de introspecção com explosão e alegria. Um Heavy Metal delicioso e divertido. Perfeito pra se colocar sozinho no carro e fazer da direção algo potencialmente agradável.

Mas acho realmente que o encanto que essa banda me despertou está diretamente ligado ao talento de seu vocalista. Sua voz, quase sempre em um particular drive, e variando às vezes pro gutural, consegue com invejável competência dar muita vida às músicas. Ouvi uma cantora uma vez dizer que a voz perfeita tem 60% de técnica e 40% emoção, mas a voz de Dawnless é 100% emoção, e assim o deve ser.

Que Dawnless tenha o espaço que merece no mundo da música.

GAMMA RAY – NO WORLd ORDER!

Aqui, já deixo avisado, No World Order é meu álbum preferido. E assim o é desde que eu o ouvi pela primeira em 2002. É um CD de Power Metal, talvez o melhor exemplo do estilo, e sua temática não podia ser melhor tratada sem os elementos que esse subgênero traz, com um tom de grandiosidade, um tom sabático, revoltado e sombrio. Muito pesado e rápido, apresenta refrões marcantes, mas que não enjoam, o que seria normal para o estilo. Gamma Ray faz tudo isso sem soar pedante, sem virtuosismos desnecessários, sem exagero nos clichês do já clássico Power. Um CD na medida, com os elementos necessários para se tratar de um assunto relevante e atual, não mais sobre uma era medieval bonita e bela que nunca existiu. O assunto aqui é o Poder.

O encarte é simplesmente maravilhoso, e, como todo bom fã de Metal já sabe, esse aspecto visual é super importante para o conjunto. Os vocais fortíssimos de Kai Hansen, ora graves ora agudíssimos, nos levam para 11 músicas de causar uma revolta que faz o sangue simplesmente borbulhar. É um CD que exige a atenção de não ser meramente um fundo musical pra se fazer outras coisas; é um CD que deve e merece ser ouvido com exclusividade. E vale muito a pena.

Ao longo das letras, se fala dos Illuminati; da infeliz sensação de vigilância a que nos submetemos cada vez mais; da influência negativa das religiões; da tentativa constante de se estabelecer uma ordem mundial, sempre pelo silêncio, pela manipulação da política pelo dinheiro e ganância; das promessas dissimuladas de um mundo melhor. No final, tudo isso se soma como uma crítica a qualquer sistema político, social, econômico imposto, que se sustentam pela disseminação da ignorância e alienação.

Mas como não poderia deixar de ser, o álbum fala de esperança, de luta contra o sistema opressor seja ele qual for. E não somente ao presente, mas a qualquer outro que esteja por vir. Não queria usar a palavra anarquia nesta resenha, pois o disco não fala nela explicitamente, mas se trata sim de uma busca por algo diferente, sem nomes, sem teorias, sem nem mesmo a utilização de chavões anarquistas, sem proposições. Sem ordem. É, no fim das contas, um apelo pela liberdade e pelo amor livre.

“Masters are relentless, torture is for slaves
Money, greed and power drives you to obey
Temperature is rising, shakes me to the core
Blood and domination, victims of the law” (Heart of the Unicorn)

“Lead us not into temptation as we grow in fear
Free your mind from all frustrations as they’re drawing near
Take your time, live in sin, choose your alibis
Work all day, die in pain, you’re a sacrifice
They’re gonna send you down to hell
And put your body on a shelf” (Fire Below)

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Sobre Rafael de Deus Garcia

Opinião e Crítica de Rafael de Deus Garcia, advogado e professor.
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