A verde e amarela não é mais nossa

Mais uma Copa América chega ao fim. Uruguai campeão e uma festa linda que há muito tempo não se via por causa de uma seleção nacional, excetuando no caso de comemorações pós finais de Copa do Mundo. Sob um frio mortal, a cena de 50 mil pessoas esperando no Centenário é algo de encher os olhos de qualquer apaixonado pelo esporte bretão. Apoteose merecida para uma seleção que resgatou a história charrúa e recolocou a Celeste no lugar do qual nunca devia ter saido.

Nesse mar de fatos épicos e ao desenrolar dessa história, uma dúvida me acometia: e se fosse nós? comemoraríamos com tamanha intensidade? ou melhor, comemoraríamos? haveria motivo para se comemorar?

Não sei, mas para mim as respostas a essas perguntas são quase óbvias: não comemoraríamos; não teríamos motivos para comemorar. A verdade é que há muito tempo se perdeu o sentimento de afetividade em relação ao esquadro nacional. Pelo contrário, noto um desprezo, uma antipatia e um “não ligo” direcionados à seleção canarinho. De onde vem tais comportamentos é difícil dizer, mas me arrisco a chutar algumas hipóteses.

Diferentemente do que a patota da imprensa marrom tenta afirmar, creio que esse alijamento da população em relação à seleção se dá muito menos pelo que acontece dentro de campo, mas sim pelo que acontece fora dele. Sinto que a verde e amarela não é mais nossa, do povo. Pelo contrário, ela é de alguns, de poucos que dela fizeram para satisfação de interesses pessoais. Que a transformaram em um simulacro para dela fazer uma imagem afastada de sua história. De poucos que se apropriaram do discurso ufanista e nacionalista para fazerem uma seleção privatizada e com interesses escusos.

A seleção não é nossa, é de Galvões, da imprensa, de Teixeiras, da corrompida CBF, de presidentes de clubes e de empresários. Quando ela joga, não é para nós, é para eles. É uma seleção que não se dá ao trabalho de jogar na sua própria terra; é uma seleção que desconhece a Granja Comary; é uma seleção que desconhece o contato com o brasileiro; é uma seleção que desconhece a entrevista que não seja vendida, exclusiva, enviesada e feita para as grandes emissoras; é uma seleção que só joga para quem paga, e paga bem.

Não é questão de raça -afinal, tivemos Dunga há pouco tempo-; não é questão do time que entra em campo -afinal, é praticamente esse o time que querermos, e essa questão nunca é passível de unanimidade-; não é questão de futebol bonito -será que esse discurso assumido pela mídia condiz mesmo com a realidade?-. É questão de pertencimento, de identidade, de se sentir representado. De poder falar que essa seleção é a minha, a nossa seleção.

Distante da sua realidade, a seleção brasileira se afasta até mesmo no discurso. Poucos são aqueles que falam e podem falar dela. Poucos, mas que se dizem falar no nome de muitos; falar no nosso lugar. Discurso ilegítimo que quebra a representatividade. Discurso que se apropria de uma tradição histórica para ser exercido por poucos e para subverter aquela própria tradição. Discurso que se pretende público, mas que no fundo é privado.

Como apaixonado por esse esporte, é triste ver que estamos perdendo uma chance histórica para resgatarmos o orgulho da seleção como aconteceu na Alemanha e África do Sul, mesmo que coloquemos na balança todos os malefícios da Copa em um país, principalmente no caso sul-africano. Mas vamos mais longe, além de repetirmos os mesmos erros desses outros países, os aprofundamos ainda mais. Não só a seleção foi instrumentalizada, a Copa de 2014 está indo no mesmo sentido.

Mais uma vez, e como sempre, aquilo que é vendido como de todos satisfaz apenas poucos. A crise de legitimidade é patente, ainda que camuflada e subvertida no ufanismo enlouquecido de um Galvão Bueno.

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Sobre Marcos Vinícius

The black sheep boy who dreams of horses. Graduado em Direito pela Universidade de Brasília, secretário parlamentar no gabinete do dep. Chico Alencar (PSOL-RJ) e membro da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA). Um aficionado por música, política e amores anarcotropicais.
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