The National. Um Apanhado de Tudo

Acho que todos devem ter uma ou algumas bandas de cabeceira, daquelas que nós sabemos a discografia todinha e que sempre nos emociona de um jeito único. Mesmo sendo difícil estabelecer uma única banda entre aquelas minhas favoritas, até porque eu considero o Olimpo como algo mutável, com certeza The National sempre figurou entre aquelas que mantenho uma relação especial.

Lembro até hoje os primeiros contatos com Boxer e Alligator. Era apenas mais uma banda no meio dos cds do meu irmão, e sem dúvida não estava entre aquelas que mais me chamaram atenção. Não me lembro se era a voz, a falta de “radiofonia”, a lerdeza ou o instinto. Pouca coisa me agradava. Lembro que o Alligator estava em ordem alfabética e por isso começava com Abel. Lembro também que eu pensava: que porra de música é essa? chata pra cacete. Haha, logo ela que hoje é uma das minhas músicas preferidas de todo o sempre.

De lá pra cá muita coisa mudou. A cada nova chance que eu dava, mais The National crescia em mim. Fui descobrindo formas de amar essa banda, e o amor me impressionava a cada detalhe não percebido, a cada novo sentimento, a cada momento marcante no qual músicas como “Slow Show” ou “All The Wine” tocavam como trilha-sonora. Idas e vindas, o certo é que The National nunca mais deixou de ser parada obrigatória na minha vida.

Como ponto certo, virou banda para todo momento. Para escutar quando a criatividade cansa, para escutar quando o amor veio e se foi, para escutar quando bate aquela saudade, para escutar quando se quer chorar, para escutar quando se quer sorri. No carro, no quarto solitário, no fone de ouvido andando por aí, na cama de olhos fechados, com os amigos. Gritando, refletindo, cantando, acompanhando, no violão, nos pés, nos pulos, no se joga, nas lágrimas. The National virou parte da minha vida, virou sentimentos pessoais em forma de música. Virou uma “abstração concreta” que mistura o passado, o presente, o futuro, tristezas e alegrias em ondas sonoras. Virou mito e parte da minha identidade.

Por ser uma banda tão importante pra mim e estarmos perto dos shows deles aqui no Brasil, senti-me na vontade de fazer esse apanhado de toda discografia, com “breves” comentários pessoais sobre cada álbum ou ep. Talvez um guia, talvez uma extravasar de sentimentos ou talvez apenas capricho de querer escrever aquelas besteiras que ninguém liga. Não sei, mas vamos lá que o tempo urge!

The National (2001)

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Já fazem quase 10 anos do début, tempo que mostra como o passar dos dias é muito bom para certas coisas. Assim como tive dificuldades de assimilar vários elementos da sonoridade da banda por talvez uma falta de maturidade, tomo esse álbum como o início de uma experiência que precisava ser testada e experimentada, e que por isso ainda estava muito cru para desenvolver todo seu potencial. Muitas coisas ainda não casam bem, parecem deslocadas ou mal explicadas. Mas isso não chega a atrapalhar o ótimo trabalho desenvolvido. Ainda pegado no folk e no alt-country, estilos dos quais eles vão se distanciando claramente no decorrer da carreira, o álbum é uma boa dose de som interiorano e rústico dos Estados Unidos. Nele nos deparamos com pérolas como The Perfect Song, American Mary e 29 Years (música que serve como prelúdio de Slow Show). Mas ainda mais próximos de um Okkervil River do que do The National atual, esse álbum definitivamente não ficaria na memória de muitos caso a banda terminasse nele mesmo.

Sad Songs For Dirty Lovers (2003)

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Wow, que diferença podemos ver aqui em relação ao primeiro álbum! A banda começa a se encontrar, começa a realocar acertadamente os exageros e a explorar, de forma coerente, o seu potencial. Não considero SSFDL como o álbum paradigmático da banda, título que reservo ao Alligator, mas nele já podemos reconhecer a banda dos três álbuns posteriores. A temática folk e alt-country permanece praticamente intacta, apesar do acréscimo de novos elementos. Abrindo com a belíssima Cardinal Song, o álbum é recheado de sucessivos petardos, como Slipping Husband, It Never Happen, Fashion Coat e Lucky You. É também neste álbum que o reinado de Berninger começa a ser visualizado. Dono de uma voz e de um sentimentalismo ímpares, o casamento entre público e banda passa ser montado por uma textura de sensações comuns e relacionais. A revolução sonora ainda não começou aqui, mas a emotiva sim. A identificação entre o que ele canta e a nossa vida pessoal, uma das características mais fortes da banda, será o mote daqui pra frente. Os problemas dele são nossos problemas. Só podemos dizer isso pra ele “You own me, there’s nothing you can do”.

Cherry Tree (2004)

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Esse ep é uma preciosidade. Tão curto, mas tão denso e contagiante. O último passo antes da transição. Aqui eles estão no auge dos estilos mais presentes nos dois primeiros álbuns. Wasp Nest e Cherry Tree são fantásticas e donas de um sentimento soturno, desesperador e, ao mesmo tempo, renovador. Ainda sobra espaço para uma das minhas músicas preferidas de toda a carreira da banda, e que voltará a aparecer no Alligator, All The Wine, e para a soberba All Dolled-Up In Stars. Perto do fim uma versão ao vivo arrasadora de Murder Me Rachel. Pequeno, mas com força de álbum.

Alligator (2005)

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Podemos dizer que é aqui que tudo começa. A bateria militar e extremamente criativa, riffs cortantes e mnemônicos, baixo mais dominante, a voz pesada assumida, o ritmo quebrado constantemente e tudo mais que vai fazer parte das características da banda daqui pra frente. Ainda com um pé no folk e no alt-country, neste álbum o The National começa a se aproximar de uma sonoridade mais parecida com o post-punk, fazendo uma mistura positiva que representa um salto de qualidade em todos os sentidos. Radiofônico, Alligator é talvez o álbum que mais trouxe os olhos de novos setores de ouvintes para o som produzido pela banda. Como verdadeiro semeador, ele tratou de angariar novos fãs e novas mídias, servindo como verdadeira base sólida para que o The National extrapolasse o pequeno mundo em que vivia. Em uma nova gravadora, com críticas positivas de grandes meios de comunicação, prêmios, turnês grandes e todos aos seus pés, Alligator não representa só uma mudança de som, mas também o pulo do The National para a consolidação como uma das grandes bandas da década.

Boxer (2007)

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Na ânsia de produzir o álbum seguinte sempre melhor que o anterior, The National tinha uma missão árdua pela frente. Para barrar Alligator, Boxer teria que ser um clássico, um álbum único e genial. Difícil, praticamente impossível. Mas eles conseguiram. Clássico, genial e único. Clássicas, genias e únicas são todas as músicas deste que é melhor álbum da década passada, na minha opinião. Abrindo com Fake Empire, a banda mostra que aqui eles não precisam provar mais nada para ninguém, muito menos tentar ampliar o público por meio de uma “popularização” do som produzido. Com uma maré favorável produzida por Alligator, The National estava mais livre do que nunca para fazer o que eles quisessem. Pesado, soturno, hard-listening, estranho e com pouco apelo para os rádios, Boxer é quase um paradoxo quando se coteja essas características com o sucesso que gerou. O post-punk revival é assumido como característica primordial da banda, no qual a bateria, às vezes tímida nos primeiros álbuns, ganha destaque e toma conta como o instrumento mais genialmente trabalhado. Músicas como Mistaken For Strangers e Brainy são aulas de um casamento perfeito entre guitarra e percussão. Outro fato notório é o trabalho que a banda tem em criar uma atmosfera peculiar para cada música, com sons grandiosos e cheio de camadas, as faixas vão se sucedendo e a imersão sendo ampliada. Espaço etéreo cortado por batidas que lembram tambores militares, como em Squalor Victoria. No meio de tudo isso, ainda sobra espaço para Slow Show e Apartment Story, talvez as minhas músicas preferidas da banda. A primeira, retomando a temática de 29 Years (faixa do primeiro álbum), faz um retorno de mestre e serve como marco para mostrar como a banda cresceu ao longo dos anos. Já Apartment Story conglomera todas as características do álbum em 3 minutos e 33 segundos. Bateria, atmosfera ímpar, Berninger apaixonante e letra mais do que foda. Brilhantes. Por tudo isso, Boxer é parada obrigatória na música da década passada.

The Virginia EP (2008)

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O EP após o nome é para deixar claro, isso não é um álbum, não o tratem como um álbum. Retomando passagens anteriores ao Boxer e mesclando-as levemente com as inovações produzidas até agora, The Virginia EP serve como uma pausa nas pretensões da banda, uma tomada de fôlego após uma corrida incessante em busca da perfeição. Sem os objetivos de um álbum, apesar do número de faixas (!), o ep é um sentar na cadeira ao fim da tarde para abrir aquele álbum de fotografias. Relembrar o passado e momentos esquecidos, um resgate do que já fizemos para reorganizar as idéias. O pensamento derradeiro antes do retorno para casa. You’ve Done It Again, Virginia; Santa Clara; Without Permission; e Tall Saint são passagens que, como b-sides, atuam bem nesse resgate do que o The National foi, é e pretende ser.

High Violet (2010)

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O que foi dito nas primeiras linhas de Boxer também pode ser falado aqui. Com a missão mais do que complicada de suceder um clássico, High Violet teria que amplificar e aprofundar todos os acertos produzidos pela banda até então. E foi justamente isso que aconteceu. Seguindo no som peculiar e característico de Boxer, o álbum de 2010 ratifica o caminho traçado pela banda no decorrer dos anos. Com toda a bagagem adquirida, The National fez de um álbum extremamente difícil aos ouvidos um sucesso de público e crítica por reunir uma série de qualidades que só o tempo é capaz de criar. Seguros de si, a banda alcançou uma maturidade combinada com um vigor invejável. Mais uma mudança de gravadora e a produção disponível ficou ainda mais grandiosa, fato notado pelo trabalho belíssimo produzido em cada faixa. Nota-se a dedicação e o esforço quando percebemos que o álbum não contém uma única falha, não resta uma aresta a ser aparada. A ambientação épica talvez seja a característica que mais chama a atenção. Muitas vezes só identificamos a bateria, Beringer e uma série de sons combinados de forma indecifráveis. Pelas letras, tenho esse álbum como um retorno para a casa, mas como todo regresso, voltamos diferentes. E que diferença esses anos fizeram para o The National. De uma banda alt-country comum a uma das bandas mais aclamadas dos últimos anos, dona de um som único e marcante, fato extremamente difícil nesses anos de disseminação da informação e pluralização das mídias. Que diferença entre a ingênua Beautiful Head e a angustiante Vanderlyle Crybaby Geeks, entre a clássica American Mary e a nova clássica Terrible Love, que tirou o posto de Fake Empire como melhor introdução e dona do som mais diferente em toda carreira da banda. O que dizer de Afraid of Everyone e sua letra mortal que nos faz cantar e chorar, de Bloodbuzz Ohio com sua bateria, toque pop e Berninger definhando, da chiclete Anyone’s Ghost ou de Runaway e sua circularidade dilacerante. High Violet é a perfeição para o The National, é mais um desafio vencido. É Berninger assumindo que nunca resolverá seus problemas e aumentando, por isso, a identificação entre nós e ele. É o The National no seu auge. Se Boxer virou um clássico, High Violet fez de The National um clássico.

Por fim, fica o filme A Skin, A Night, de Vincent Moon, sobre a gravação de Boxer. Fantástico e com um clima espetacular, ele mostra a intimidade da banda e partes do processo de elaboração do álbum. Com uma fotografia fantástica, é mais um convite para entrar na intimidade da banda e conhecer um pouco mais desses que são senhores do nosso tempo. Destaque para a feitura de Slow Show e o fim animal com uma versão ao vivo de About Today.

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Sobre Marcos Vinícius

The black sheep boy who dreams of horses. Graduado em Direito pela Universidade de Brasília, secretário parlamentar no gabinete do dep. Chico Alencar (PSOL-RJ) e membro da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA). Um aficionado por música, política e amores anarcotropicais.
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Uma resposta a The National. Um Apanhado de Tudo

  1. Paulo Paulada diz:

    Ficou doido careca! the national rooooooocks!

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