O Que Deu Errado?

Eram meados de 2008 e um furor mundial tomava conta de todos. Um sentimento raro de esperança preenchia o coração daqueles que ainda acreditavam na possibilidade de dias melhores. O sonho, enfim, parecia estar se concretizando, e ele tinha nome. Obama era um daqueles raros sopros que reorganizava as incertezas em certezas e retirava parte do peso das nossas existências.

Mais de dois anos se passaram e todos aqueles que tiveram esperança se perguntam: o que deu errado? por quê? onde aquele sentimento de dias melhores se perdeu e mergulhou novamente no temor em relação ao futuro?

Certamente algo descaminhou entre aquele que dizia que não entraria em guerras como o presidente anterior, e este que participou da ofensiva contra a Líbia; ou entre aquele que nos primeiros dias de mandato ordenou o fechamento da Prisão de Guantánamo, e hoje ordena a reabertura de processos daqueles que lá se encontram. Políticas de inclusão, antimilitarismo, pensamento sustentável em relação ao meio ambiente, diminuição do intervencionismo estadunidense e maior flexibilidade no diálogo internacional. Em umas mais, em outras menos, o certo é que em todas essas promessas Obama passou longe do que se esperava dele.

Inegavelmente Obama falhou. O porquê persiste.

Talvez este porquê resida justamente no contexto histórico do qual Obama fatalmente não conseguiu se desvencilhar. Obama representava os anseios de uma população infeliz com o rumo escolhido pelas atuais políticas; representava um basta contra um projeto anacrônico de vida que está nos levando para um futuro com perspectivas nada agradáveis. Era um sonoro “não” contra a atual conjuntura político-econômico-social. Era um “sim” por mudança. Era a alternativa ao presente. No entanto, Obama representou somente a vontade, vontade esta que não encontrou campo fértil para se fazer valer.

Obama falhou justamente por estar preso a um modelo político, para ficar somente neste campo, que não mais responde às perguntas e às incertezas que este mesmo modelo tratou de criar. O medo, a aflição e a exitação em relação ao futuro foram criados por uma mentalidade que se julgou, e julga, capaz de controlar o presente na intenção de dominar o futuro e assim fazer do amanhã algo melhor. Esse pensamento, que nasceu com o cientificismo, dominou também a política. Mentalidade moderna, mentalidade prepotente que, na sua pretensão de compreender tudo a partir de sua razão objetivista, falhou. Obama falhou por estar atrelado, de uma forma ou de outra, a ela. Falhamos por acreditar nela.

Depositamos nossas esperanças em um sistema que não mais responde às nossas perguntas e aos nossos anseios. A democracia não falhou, mas o modelo presidencial ou parlamentar puro sim. Conceber as eleições e o sistema representativo como a única, ou uma das únicas, forma de interferência na população no rumo das tomadas de decisões é um exemplo de modelo moderno insuficiente frente às novas demandas. Um sistema verdadeiramente inclusivo e emancipador deve ser pensado. A confiança no progresso, também fruto daquela mentalidade, não correspondeu às expectativas nele confiadas, pelo contrário, agravou ainda mais os problemas que ele tinha o mote de resolver. Talvez, como Boaventura de Sousa Santos afirma, devemos não procurar um progresso alternativo, mas uma alternativa ao progresso.

Uma ruptura de paradigma está acontecendo, e o efeito Obama representou, de certa forma, os dois lados da moeda desse fenômeno: o querer mudar e a insuficiência do modelo atual frente a este mesmo querer.

Nesse contexto, o mundo chega mais uma vez entre uma bifurcação sem precedentes: ou continuamos presos ao sistema atual, agarrados em uma resignação absoluta a espera de um futuro que tende para o aniquilamento total ou um adensamento na dominação já exercida do homem pelo homem, ou pensamos em formas alternativas de construção de um conhecimento e de uma sociedade que sejam prudentes (mais uma vez usando Boaventura) e que sejam críticos em relação a sua atual situação, que sejam capazes de dialogar com as diferentes formas de cultura e vida, para que, talvez, assim as demandas comecem a ser realmente supridas.

Um modelo de progresso e desenvolvimento, que já se mostrou fálido e ultrapassado, não pode mais sobrepujar todos os demais existentes e possivelmente existentes. Obama talvez representasse uma tentativa desses “contramodelos”, porém apostou (apostamos) no meio obsoleto para realizá-lo.

Do tempo em que ainda tinhamos esperança nele:

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Sobre Marcos Vinícius

The black sheep boy who dreams of horses. Graduado em Direito pela Universidade de Brasília, secretário parlamentar no gabinete do dep. Chico Alencar (PSOL-RJ) e membro da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA). Um aficionado por música, política e amores anarcotropicais.
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2 respostas a O Que Deu Errado?

  1. Thomaz diz:

    1 presidente nao vai mudar tudo se ele nao tiver o apoio de outros setores politicos do governo…. ele nao pode sair aprovando tudo se os demais não aprovarem tmb

  2. Sim, ainda mais quando se perde a base no Congresso, que já era quase insuficiente para situações delicadas, como a reforma na saúde. A verdade é que o modelo representativo puro deve, se quiser responder às demandas, passar por reformas em um sentido de inclusão. Democracia não se restringe ao formalismo eleitoral que pouco mudou desde a sua implementação. Democracia é um estilo de vida e sociedade. Deve ser radical no sentido de uma permanente participação popular e de todos segmentos da sociedade. Seja Obama lá, ou Lula aqui, a verdade é que um não decide quando a tarefa deve ser assumida por todos diretamente, e não de forma delegada.

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