The Revolution Will Not Be Televised

A revolução não será televisionada, esse é o lema do clássico de Gil Scott-Heron, música dos anos 70 e que se insere perfeitamente no contexto daquela época. O mundo pulsava paixões, sonhos, devaneios e utopias. O sentimento de luta por um futuro melhor não era apenas algo esquecido no passado, mas um estado de espírito do mundo ocidental.

Os anos se passaram, o fim da história, apesar de negado, permeou o imaginário coletivo. Um progresso indecente; a seta da história levaria todos os povos para o mesmo e sonhado fim. A inexorabilidade do desenvolvimento econômico chegaria a todos. Talvez essa confiança na vitória final levou ao relaxamento de nossos corações e idéias. Palavras como revolução, luta, massa, mudança e protesto estavam fora de moda. Mas assim como a moda, essas palavras parecem ter sido alvo de um jogo mais obscuro; um jogo que a simples visão superficial não é capaz de compreender. Foram alvo de discursos e mentiras construídas ao longo dos anos. De negações e afirmações; justificações e fundamentações que não cabem mais. Falsidades e meias-verdades que enfim vão sendo destruídas e postas em terra.

O que vemos hoje no norte africano e no oriente médio é o despertar dos oprimidos; é a tomada da rua por aqueles que querem ser, enfim, ouvidos. Como fogo em pólvora, a revolução contagia aqueles que compartilham dos mesmos fardo e destino. Assim como no século XVIII a Revolução Francesa foi o despertar dos povos europeus contra os antigos regimes, a Revolução Egípcia (sim, com letras maiúsculas) marca o início de um novo mundo islâmico. Que mundo será esse nós não sabemos, mas não cabe a nós retirar a legitimidade daqueles que, no presente, lutam por mudanças, por democracia e cidadania. Não cabe a nós minorar o levantar dos oprimidos, muito menos fingir que algo muito grande não está acontecendo.

E o que o mundo ocidental acha e fala disso tudo? pouco, muito pouco. Faz menos, muito menos do que fez com países do dito eixo, como Cuba e Irã. Enquanto estes são inimigos ao sistema ocidental, os países que hoje passam por revoluções são aliados estratégicos do jogo político e econômico das grandes potências. Isso explica muito coisa, como o fato de só agora estas ditaduras tomarem os noticiários e o discurso corrente, enquanto Ahmadinejads e Castros são sempre os estandartes das violações dos direitos humanos e de regimes que não devemos seguir.

As revoluções, neste contexto, servem para mostrar que muita coisa que acreditamos não são verdades certas e imutáveis. A história é fluida, cheia de retrocessos e avanços. O discurso não é um simples ato comunicacional, mas reveste-se de poder e de luta por poder. As revoluções atuam como rupturas de paradigmas discursivos. Ajudam-nos a perceber o que está por trás do que é dito e afirmado. No Egito e agora na Líbia, o povo percebeu sua realidade oprimida e contra ela se insurgiu. Outros seguem nesse mesmo caminho. O povo se levantou contra um cartel de mentiras construídas ao longo dos anos. A praça, renegada nos últimos tempos como fonte de deliberação, ironicamente surgiu, novamente, como o lugar onde se dá uma nova construção discursiva moldada intersubjetivamente.

Que as revoluções dos países islâmicos rompam os seus microcontextos, que elas afetem profundamente a forma como nós, “os ocidentais”, vemos o mundo. Que elas, assim como está acontecendo lá, ajudem a desmistificar e desfundamentar uma série de discursos perversos que fazem parte do nosso círculo de idéias. Que pelo menos sirvam para ampliar, modificar ou fazer refletir o nosso jeito de ser, e a relação que temos com os outros.

Até agora a revolução está sendo televisionada, mas ainda precisamos daquela que não será.

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Sobre Marcos Vinícius

The black sheep boy who dreams of horses. Graduado em Direito pela Universidade de Brasília, secretário parlamentar no gabinete do dep. Chico Alencar (PSOL-RJ) e membro da Esquerda Libertária Anticapitalista (ELA). Um aficionado por música, política e amores anarcotropicais.
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2 respostas a The Revolution Will Not Be Televised

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  2. Bárbara diz:

    revolution will not be tweeted

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