CINCO ÁLBUNS DE METAL QUE MERECEM SER OUVIDOS (DE NOVO).

Falar de música é falar de sentimentos. E na música, como expressamos a angústia, a fúria, a revolta, uma paciência que aos poucos se substitui por desprezo, a solidão, um grito contido, o medo? Há também aqueles momentos de bela estranheza, de um ódio que se faz bonito ao seu modo, de uma paixão que se esperou viver e não viveu, da morte cotidiana, e da vida sem graça rotineira que alimenta sua antítese explosiva e incrivelmente calorosa. Há ainda aqueles lugares que se busca alcançar no interior da mente, em que a música se faz como a chave de milhões de portais desconhecidos, mas, ao mesmo tempo, nossos.

O Heavy Metal se torna, então, necessário, indispensável. Um canal para a expressão de um eu contido, recôndito em uma pequenez infinita que clama por ser explorada. Metal é sim falar de extremos, de sentimentos extremos. No entanto, é também mera diversão, um bate-cabeça despretensioso e amigável, compartilhado. Heavy Metal é tudo isso.

Com os devidos agradecimentos ao Marcos Sagaz, que cedeu um espaço ao Heavy Metal em seu blog, deixo com vocês minha humilde opinião sobre cinco álbuns do gênero que merecem nossos ouvidos, atentos ouvidos. Se os já conhece, acho sempre válida uma segunda visita. Se não, delicie-se.

SAVATAGE – POETS AND MADMEN

Se eu tivesse que escolher uma só palavra para descrever este belíssimo álbum do Savatage, eu escolheria “misterioso”. Jon Oliva, com sua gravíssima e pesada voz, comanda essa banda para te levar por uma aventura muito bem elaborada, em um Heavy Metal muito do maduro, direto, objetivo e com riffs de guitarra surpreendentes. Metal de adolescente para longe daqui, afinal de contas trata-se do 12º álbum de uma banda com muitos bons anos de história.

A começar pela intrigante capa, que ajuda a entrar no clima do CD, o encarte nos presenteia com uma história ficcional inspirada no fotógrafo Kevin Carter, que tirou a foto de uma criança prestes a morrer de fome sendo observada por um abutre que aguarda pacientemente por sua morte. A polêmica foto lhe rendeu o melhor prêmio de fotografia do mundo, muitas críticas por não ter ajudado a criança, um avançado quadro de loucura e motivos suficientes para seu suicídio.

Poets and Madmen, cujo conceito é do produtor Paul O’Neill, nos leva para essa viagem pela mente de Kevin Carter. A temática é loucura, indignação hipócrita de uma inércia geral, impotência, ganância, suicídio. Somos levados nessa viagem com uma competência impressionante.

Apesar da genialidade que permeia todo o álbum, uma música se destaca. Seu nome é Morphine Child. São 10 minutos de pura riqueza musical e poética. Muito emocionante. Em minha opinião, consegue resumir magicamente a concepção de todo o álbum. Aqui está um trechinho:

“No regrets                                                                                                                                         If you just forget.                                                                                                                                If a memory is lenient                                                                                                                   You can find it most convenient                                                                                                     So you let it fade                                                                                                                              Till it’s very vague                                                                                                                          Just a silhouette of shadows                                                                                                            But the shadows are still lingering”

METAL CHURCH – METAL CHURCH

Conheci essa banda em um clipe em preto e branco, de madrugada, na MTV. Sim, na MTV, em um tempo que nunca mais voltará, pelo menos não ao que parece. Logo me surpreendi. Fui procurar e simplesmente me apaixonei por este álbum que carrega o próprio nome da banda. Fico muito espantado em ver como essa banda é subestimada, este álbum especificamente.

O som rápido, pesado e agressivo faz parecer que se trata de uma banda padrão de thrash metal dos meados dos anos 80. Porém, o que mais chama a atenção são os vocais agudos, gritados e rasgados de David Wayne. Essa voz é simplesmente única, e garante à banda uma categoria à parte nas infindáveis classificações do Metal. Vale a pena conhecer essa peculiar voz e se surpreender com sua imensa versatilidade, inclusive fazendo um belíssimo e limpo tom na música Gods of Wrath, muito bem trabalhada e mais lenta que o restante das músicas.

Ouço Metal Church e me sinto imergido naquele clipe que mencionei. Em um cenário preto e branco, com o aspecto polonês do pós-guerra, poeira, escuridão e fogo misturado com concreto e ferro desabados. E o som da banda é bem por aí mesmo, apesar de muito bem executado, com uma das melhores e marcantes baterias que já ouvi, e um baixo cru, seco, mas muito inteligente; a guitarra é suja, os pratos são altos e frenéticos.

Enfim, Metal no que pode oferecer de melhor. Um álbum único, emocionante, e muito injustiçado. Pra começar, diria que o melhor primeiro passo seria pela própria música que dá o nome da banda: Metal Church.

 

BLACK SABBATH – CROSS PURPOSES

Falamos aqui do que é, sem dúvida nenhuma, o CD mais subestimado do BS. Não se trata de um clássico, como os discos dos primeiros anos de Ozzy ou Dio, mas se destaca e muito dentre vários outros da banda. Aviso que você não vai encontrar uma música simplesmente genial de tirar o fôlego, mas também não vai encontrar nenhuma música que decepciona, que não dê belos momentos ao seu dia. Escolhi esse CD porque acredito que ele merece, e muito, receber um novo ouvido atento.

Os vocais de Tony Martin são belíssimos, sua voz de barítono é poderosa e dá o tom perfeito para as músicas, se encaixando perfeitamente com o estilo sombrio dominante trazido pelos membros da era auge do BS, Tony Iommi e Geezer Butler. Esse disco, aliás, traz riffs que me fazem recordar bastante os primeiros da banda, com uma pegada mais lenta e pesada.

É simplesmente um excelente álbum de Metal a ser ouvido do início ao fim sem qualquer receio. O ambiente criado pela banda é algo comparável a um marcante filme de suspense que deixa nossos sentidos aflorados ao máximo, deixando para nós um belo refúgio que todos ora ou outra necessitam.

É um exemplo de Metal feito com qualidade, sem frescuras, direto, objetivo, sem virtuosismo. E se quiser um conselho por onde começar, indico a Cross of Thorns e Dying for Love.

DAWNLESS – WINDS OF FATE

O Metal pode ser muito injusto com novas bandas. Dawnless é um belo exemplo disso. A conheci por acaso na internet e descobri que se trata de uma banda suíça que tem uma ridícula média de cinco shows por ano. Um show que eu pagaria muito caro pra assistir.

A banda nasceu nos gelados Alpes Suíços, em um inverno que aparentemente foi muito inspirador e entediante. Sua música é simplesmente encantadora, apaixonada, sincera, despretensiosa. Uma mistura única de introspecção com explosão e alegria. Um Heavy Metal delicioso e divertido. Perfeito pra se colocar sozinho no carro e fazer da direção algo potencialmente agradável.

Mas acho realmente que o encanto que essa banda me despertou está diretamente ligado ao talento de seu vocalista. Sua voz, quase sempre em um particular drive, e variando às vezes pro gutural, consegue com invejável competência dar muita vida às músicas. Ouvi uma cantora uma vez dizer que a voz perfeita tem 60% de técnica e 40% emoção, mas a voz de Dawnless é 100% emoção, e assim o deve ser.

Que Dawnless tenha o espaço que merece no mundo da música.

GAMMA RAY – NO WORLd ORDER!

Aqui, já deixo avisado, No World Order é meu álbum preferido. E assim o é desde que eu o ouvi pela primeira em 2002. É um CD de Power Metal, talvez o melhor exemplo do estilo, e sua temática não podia ser melhor tratada sem os elementos que esse subgênero traz, com um tom de grandiosidade, um tom sabático, revoltado e sombrio. Muito pesado e rápido, apresenta refrões marcantes, mas que não enjoam, o que seria normal para o estilo. Gamma Ray faz tudo isso sem soar pedante, sem virtuosismos desnecessários, sem exagero nos clichês do já clássico Power. Um CD na medida, com os elementos necessários para se tratar de um assunto relevante e atual, não mais sobre uma era medieval bonita e bela que nunca existiu. O assunto aqui é o Poder.

O encarte é simplesmente maravilhoso, e, como todo bom fã de Metal já sabe, esse aspecto visual é super importante para o conjunto. Os vocais fortíssimos de Kai Hansen, ora graves ora agudíssimos, nos levam para 11 músicas de causar uma revolta que faz o sangue simplesmente borbulhar. É um CD que exige a atenção de não ser meramente um fundo musical pra se fazer outras coisas; é um CD que deve e merece ser ouvido com exclusividade. E vale muito a pena.

Ao longo das letras, se fala dos Illuminati; da infeliz sensação de vigilância a que nos submetemos cada vez mais; da influência negativa das religiões; da tentativa constante de se estabelecer uma ordem mundial, sempre pelo silêncio, pela manipulação da política pelo dinheiro e ganância; das promessas dissimuladas de um mundo melhor. No final, tudo isso se soma como uma crítica a qualquer sistema político, social, econômico imposto, que se sustentam pela disseminação da ignorância e alienação.

Mas como não poderia deixar de ser, o álbum fala de esperança, de luta contra o sistema opressor seja ele qual for. E não somente ao presente, mas a qualquer outro que esteja por vir. Não queria usar a palavra anarquia nesta resenha, pois o disco não fala nela explicitamente, mas se trata sim de uma busca por algo diferente, sem nomes, sem teorias, sem nem mesmo a utilização de chavões anarquistas, sem proposições. Sem ordem. É, no fim das contas, um apelo pela liberdade e pelo amor livre.

“Masters are relentless, torture is for slaves
Money, greed and power drives you to obey
Temperature is rising, shakes me to the core
Blood and domination, victims of the law” (Heart of the Unicorn)

“Lead us not into temptation as we grow in fear
Free your mind from all frustrations as they’re drawing near
Take your time, live in sin, choose your alibis
Work all day, die in pain, you’re a sacrifice
They’re gonna send you down to hell
And put your body on a shelf” (Fire Below)

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Que venha 2012!

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Depois de muita comilança, álcool e outros baratos de fim de ano, dos quais eu não pude compartilhar devido aquela bela conjuntivite, fica aquela pergunta: o que nos espera em 2012?

No mundo da música, o Sagaz te dá uma lista de performances ao vivo de bandas que provavelmente estarão lançando coisas novas esse ano. Algumas com álbum já com data de lançamento (Shearwater); outras com álbum gravado e já vazado (Guided By Voices); mais outras com álbum praticamente confirmado (Muse, A Fine Frenzy e The Whitest Boy Alive); umas em que só os boatos quentes nos trazem alguma informação (Vampire Weekend e Grizzly Bear); e outras que só uma imagem no site oficial nos dá alguma dica (Phoenix). Que venha 2012 e que esse povo continue tirando aquele bom som nosso de cada dia!

Grizzly Bear

Bloc Party

Shearwater

A Fine Frenzy

Guided by Voices

Passion Pit

The xx

The Whitest Boy Alive

Muse

The Mars Volta

Phoenix

MGMT

Vampire Weekend

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Top Álbuns – 2011

Fim de ano é sempre uma época especial. Hora de rever pessoas, de relembrar encontros e de buscar na memória aquilo que de bom ficou no ano que passou. Em termos de música, tivemos 12 meses para lá de bacanas. No meio de 90 álbuns escutados (confira todos no fim do post aqui!), foi difícil escolher 10 para montar esse top.

E um top nunca é capaz de demonstrar o que de fato foi representativo nos tempos que passaram. Esse top não é capaz de mostrar a beleza reflexiva que foi o lançamento de álbuns de bandas icônicas da década passada. De quem menos esperávamos, veio o excelente Angles, fazendo nos lembrar que podemos ainda esperar coisas boas de um dos pilares fundamentais do indie. Quem não chorou quando a inesgotável Last Nite, ainda que por uma única noite, foi substituída por Under Cover Of Darkness naquela sua balada de rotina das sextas à noite?

Infelizmente, quem nós mais aguardávamos não correspondeu às expectativas. The King Of Limbs fica longe de empolgar e criar empatia. Seu maior mérito é ser mais um álbum do Radiohead. Mais nada. Poucas faixas que se enrolam em um enfadonho momento interminável. Ficamos com o clipe de Lotus Flower e ponto nessa história.

Tivemos também um ano excepcional para aqueles que gostam de música de baixa fidelidade e com cara de fita cassete caseira. Os lo-fis do mundo estão em êxtase. Ty Segall, WU LYF, The People’s Temple, IceAge, Milk Maid e Pure X são amostras de que a bola esteve lá em cima para os apreciadores de um bom ruído na gravação. A grandeza desse estilo é refletida no top 10, em que temos quatro álbuns do clássico lo-fi para nos deleitarmos. Todos débuts e um deles sendo brazuca. Yuck, Twerps, Youth Lagoon e Lê Almeida dão a coloração especial dessa lista.

No lo-fi ou quase lo-fi, ainda tivemos o fodaço Die It Blonde, dos Smith Westerns, que por detalhes e aos quarenta e cinco do segundo tempo saiu da lista. Uma pena, mas são somente dez. Porém, com certeza vale a pena ser ouvido. Noise pop, mais pop do que noise, de primeira qualidade em um dos álbuns sensações de 2011.

E nas pistas de dança, o que rolou? Com certeza o ano foi dominado por Cults e Foster The People. Torches com certeza foi o álbum mais tocado nos eventos descolados desse mundão de deus. O trio californiano levou seu pop dançante para o mainstream musical unindo a descolagem do indie com aquilo que você quer ouvir naquela tarde ensolarada em uma festa de verão. Coloque Pumped Up Kicks para tocar e curta a dona da batida mais sexy do ano.

Cabe espaço para mais duas considerações. Tivemos mais um épico absoluto shoegazeano com vibradas oitentistas do M83, que não entrou nesse top por pura miséria musical desse que vos escreve, e que demonstra a potência de um ano emblemático para o nosso querido estilo contemplativo dos sapatos (The Horrors (!), Widowspeak, Pure X e Pains estão aí para não me deixar mentir).

Além disso, tivemos mais um ano com coisas excelentes surgindo aqui na nossa terrinha, como os tão aguardados segundos álbuns de Los Porongas e de Tiê. Não foram superiores aos primeiros? Sim, mas ainda são dois excelentes registros. Mas inegavelmente o maior fato relevante, ainda que ninguém saiba, do Brasil, nos últimos 500 anos, foi a aparição da Transfusão Noise Records e seu estilinho que nós amamos.

Ainda poderíamos falar de muitas coisas que me aparecem na memória e, principalmente, de outras que não lembro nesse momento, mas chega de delongas e vamos ao motivo dessa verborragia, o nosso querido top 10 do ano!

10) Arctic Monkeys – Suck It And See

Falei de Radiohead e de The Strokes. Mas com certeza o grande reencontro desse ano foi com nossos queridos macacos do ártico. Suck It And See é mais do que um excelente álbum, é o peso das emoções dos últimos cinco anos. É a vontade de chorar quando aquele filme passa na nossa cabeça, filme que vai desde as noites dançando ao som de I Bet You Look God on The Dancefloor, passando pelo hino juvenil de Flourescent Adolescent e pelo ano ruim em que praticamente só Cornerstone salvou, e chegando ao momento que colocou tudo novamente nos trilhos e que tem como passagem musical o início de She’s Thunderstorms. Nem a impressão ruim deixada pela divulgação preliminar de Brick My Brick, que acabou virando uma excelente faixa no contexto do álbum, foi capaz de tirar esse álbum do top 10. Menos vibrante que os dois primeiros, mais acertado nas mudanças que Humbug, Suck It And See é o nosso novo Arctic, mas com o gostinho e as sensações do antigo. Deixar esse álbum crescer dentro de mim foi um dos grandes prazeres desse ano.

Destaques: That’s Where You’re Wrong (minha faixa preferida do disco e que sempre me faz querer ouvir tudo de novo), Suck It and See e Reckless Serenade

09) Yuck – Yuck

Viciante. Uma bomba viciante. Uma droga alucinante correndo no seu corpo. Uma tarde quente em uma garagem perdida, no meio de pneus, caixas de ferramentas, bicicletas velhas, maços de cigarro e algumas cervejas geladas. Um pôster do Crooked Rain, Crooked Rain colado logo ali. O som comum rola no meio de risadas. Esse é Yuck, banda anormalmente simples como o próprio nome. Simples como uma faceta que o rock nunca deveria esquecer. Como resgate daquilo que está virando senso comum nessa virada de década: o rememorar do rock lo-fi garageado dos anos 90. Um verdadeiro neopavementianismo. As guitarras distorcidas levadas por melodias descomplicadas e refrãos grudentos em uma sonzeira digna de uma rádio universitária que está prestes a descobrir Pixies. Um verdadeiro convite para você tirar o pó daquela sua guitarra velha, chamar seus velhos amigos e remontar a banda da rua que se perdeu nessa vida corrida.

Destaques: Get Away, Shook Down e Sunday.

8) Cults – Cults

Cults é de longe a banda mais descolada de 2011. O vídeo deles falando o tanto que eram nerds anti-sociais que resmungavam pelos cantos e que somente a vocal Madeline Follin, uma celebridade instantânea no meio alternativo, sempre teve todos aos seus pés já é algo para conquistar todos os corações de indies chorosos pelo mundão a fora. Cults é essa mistura de sentimentalismo artificial tão autoidentificável que é impossível não se apaixonar à primeira vista. Com uma sonoridade única e dona de uma radiofonia incrível, esse début pairou nas rádios e festas mais bacanas desse ano. Indie pop noiseado com misturebas eletrônica, possuindo uma tendência retrô no cantar e na disposição musical que deixa qualquer pé louco para sair dançando e qualquer boca louca para beijar e cantar. Sexy, downtempoquasedançante e estiloso. Esses apelos, junto com o fato de não terem virado tão mainstream como Foster, são os fatores que fizeram de Cults a banda que você deveria ter escutado esse ano, caso não quisesse ficar em dívida com a dona moda.

Destaques: Walk At Night, Most Wanted e Oh My God

7) Ivory Sky – Heartbeats

Beleza. Vamos falar de sentimentos. Vamos rimar amor com dor. Vamos chorar as feridas e declarar a paixão. Heartbeats é o álbum mais lindo desse ano. Um turbilhão de emoções de sofá despejados por um folk simples e de uma pureza única. Um Death Cab dos interiorões da América do Norte que tem como baluarte a voz de Jett Pace, com seu sotaque que não deixa negar suas origens. Às vezes apenas um piano e um cajon, em outras somente o violão. E a voz de Jett, que às vezes se torna até difícil de identificar o sexo de quem canta. Um álbum que escorre lágrimas, um álbum que sangra como os pulsos de uma América sincera, latente e dona de uma robustez de cores, texturas e passagens. Ao longo das 12 faixas, podemos sentir o calor do sol daquela manhã de primavera batendo nas costas quando olhamos de cima de um desfiladeiro rochoso para o torvelinho de um rio que corre lá embaixo, o gosto da cerveja de um bar esfumaçado em alguma cidade perdida do meio-oeste estadunidense e o clima das fronteiras úmidas entre Canadá e Estados Unidos. Em Run Free, faixa do álbum e quiçá do ano, podemos sentir tudo isso em uma amálgama sentimental com todo o peso de uma liberdade aprisionada ao amor mais incondicional.

Destaques: Run Free, More Than We Burn e This Whole World

6) Lê Almeida – Mono Maçã

“Vai, Lê! Seu safado”. Bêbado ao escutar Por Favor Não Morra após uma noite regada ao pior dos conhaques. Caras, sinceramente, não tem nada melhor que aquele chiado básico antes das faixas. Aquele zumbido de que “caralho, que gravação fuderosa da porra”. Solinhos memoráveis como aquele sexo embaçante com roupa no banco de traz do carro de teu pai dão o tom do álbum que mais honrou os culhões do lo-fi querido. Mono Maçã, como diria os sábios, é a melhor coisa que aconteceu na música brasileira desde Transa, de Caetano. “Bicho, mas essa porra é em português?” “Mas é claro, caralho. Lê Almeida, o nome desse sacana!”. Sim, taca esse album no teu som estourado que você não vai entender uma letra sequer do que está sendo cantado. Mas foda-se, Mono Maçã é a sinceridade mais escrota da festa mais escrota e mais suja e fodida que você poderia ter ido esse ano. E ainda vem um texto plastificado com palavrões para tentar passar o nível de undergroundísse que soa desse álbum. São guitarras monstruosamente criativas que farão você pirar o cabeção e fazer rodinha punk no teu quarto sozinho enquanto tua mãe te observa pela fresta da porta. Tão true como gravar Rocket to Russia em uma cassete e se declarar falso punk. 23 faixas da maior ressaca musical de 2011. “Porra, mas esse bicho é escroto demais, se liga nessa porra ae, caralho!!.”

Destaques: Eles Estão Na Minha Rua, Transpopirações e Vamos Ver o Sol

5) Twerps – Twerps

Um álbum de rock. Poderíamos assim definir o genial début desse quarteto australiano. Indie básico moldado nas bases do senso comum lo-finiano e que remete aos grandes momentos da sujeira rockeira. Sem grandes pretensões, o álbum vai se desenrolando em faixas grudentas como chiclete e que te convidam para uma viagem com poucos mangos no bolso, em que a liberdade e a imprevisibilidade do futuro são seus melhores companheiros. Riffs e letras simples dão a tônica do cd que soa como um sopro de tendências juvenis. Bobagens, amores de novela e promessas de morte por um sentimento tacanha. Em faixas que parecem trabalhar em looping de instrumentos, o vocal de Marty Frawley nos embala com sua voz hipnótica que lembra uma trip de drogas por Nova Orleans. Com tudo isso, Twerps conseguiu o feito de manter a Oceania no top anual, honrando os louros deixados por The Phoenix Foundation. Além disso, bateu Real Estate como o melhor álbum de alt-country simplificado. Uma pena que permaneça tão desconhecida. Mas não é isso que é o bom?

Destaques: Dreamin, Who Are You e Coast to Coast

4) The Pains of Being Pure At Heart – Belong

Se Twerps merece o mérito por ser o álbum da Oceania em 2011, The Pains merece méritos maiores por ter feito o melhor álbum de shoegaze do ano. Em um ano com os excelentes lançamentos de Widowspeak, Pure X, The Horrors (que puta álbum e em que fase inspiradíssima eles estão!) e M83 (o épico), Belong, mesmo assim, se destacou sobre os demais e aqui está em quarto nessa lista. Talvez esse destaque seja gerado pela perfeição com que seu dream pop é executado. Executado de forma refrescante e sensual. Longe das lentidões que caracterizam esse gênero (visto facilmente no ótimo Covered In Dust, Kindest Lines), The Pains continuou na esteira que deu certo no seu primeiro disco. Guitarras distorcidas, caídas com baterias marcadas, elementos eletrônicos impostos de forma perfeitamente premeditados, vocais sussurrados no melhor estilo shoegaze e refrãos popsônicos que saem direto da orelha para a boca. As três primeiras músicas são um soco na cara. Rápidas e de pegadas alucinantes, nos fazem aumentar o volume na primeira ouvida. Três flechas certeiras no coração. Nos cativam e nos preparam para a descida que o álbum sofrerá nas próximas faixas. De forma mais lenta, o álbum é conduzido de forma ímpar, de músicas de ambientes etéreos – Ane With Na E – a um verão californiano na década de 80 – Even In Dreams. Depois das faceiras My Terrible Friend e Girl Of 1000 Dreams, o álbum fecha com mais duas faixas hipnóticas. Mais um puta álbum de uma puta banda que cada vez se destaca mais no cenário alternativo.

Destaques: Heart In Your Heartbreak, Heavens Gonna Happen Now e My Terrible Friend

3) Youth Lagoon – The Year of Hibernation

Difícil falar sobre o que é simples. Difícil falar sobre aquilo que se perde em um abstratismo praticamente indescritível. A genialidade de The Year of Hibernation é trazer à tona sentimentos perdidos em memórias de um passado não renovável através de uma simplicidade de produção única. Simplicidade que não reduz sua música, a qual é feita de camadas densas e minimalismos de toques que a tornam um trabalho impressionante. A voz de Trevor Powers é cantada como um choro de criança que tenta compreender o mundo. De uma criança prendida em um túnel escuro que faz ecoar o pranto de forma distorcida, distante e tenebrosa. Com cara de que foi feito com a mesma habilidade que se zera um jogo no seu Super Nintendo encardido, esse álbum tem o jeito, a textura, o sabor e o cheiro de um quarto escuro, com fios cortando o ambiente, em alguma cidade calorenta do leste desértico e interiorano da Califórnia. Um transbordamento de emoções de nossos bons anos. Emoção genuína e difícil de levar a termo. Emoção que até hoje molda o que somos. Escutar a subida final de Montana é ter a certeza de que Trevor Powers conseguiu juntar toda essa emoção juvenil em músicas de um ambiente desolador, único e nostálgico. E que com isso acabou fazendo um trabalho icônico no cenário indie. É saber que em The Year of Hibernation é onde você encontrará os sentimentos mais puros no meio musical desse ano. Um clássico estadunidense.

Destaques: Montana, Seventeen e July.

2) Fleet Foxes – Helplessness Blues

Para finalizar a lista, duas bandas que conseguiram o que parecia impossível: fazer com que seus segundos álbuns não ficassem devendo aos primeiros, esses já clássicos absolutos. A primeira delas é Fleet Foxes, que mais uma vez nos presenteou com um folk impecável. Soando como uma viagem pelo interior dos Estados Unidos, da gelada costa leste ao selvagem oeste, passando por cânions, pequenas cidades, ranchos, plantações, pântanos, festivais lotados de vaqueiros, paixões deixadas na beira de estrada e encontros com a América do Norte natural e pulsante. Helplessness Blues é uma ode ao sentimento de liberdade que se renova em gerações de descontentes com a sociedade em que vivem e que, com isso, buscam sua verdadeira experiência transcendental em uma viagem pelo coração dos Estados Unidos. É a alma do homem do campo exposto em músicas perfeitamente construídas que nos fazem ser transportados para uma viagem em um trem de carga atravessando as Rochosas. Robin Pecknold traz a essência desse viver desbravador tão difundido e explorado de forma massante pela mídia tacanha. Robin é fruto da contradição de um país que transforma todos em engrenagens e no qual o conclamado ideal de liberdade só pode ser encontrado nas margens dessa mesma sociedade que trata de negá-lo. Liberdade que só pode ser encontrada na fusão do homem com a natureza. Do homem com a terra; com a vastidão a ser explorada. Do homem com as relações cruas que só podem ser germinadas quando as toxidades da vida moderna são purificadas pelo selvagem da liberdade.

Destaques: Helplessness Blues, Montezuma e Grown Ocean

1) Girls – Father, Son, Holy Ghost

De Kanye West a Christopher Owens. De um turbilhão expansivo de apelos midiáticos indecentes guiados por um showman absolutamente genial e megalomaníaco a uma singeleza inocente instrumentalizada em um tímido jeito adolescente sustentado por histórias de romances faceiros e infantis. Esse contraponto entre as duas personalidades musicais de anos que se sucederam serve para contrastar o que Girls e seu líder têm de mais peculiar e melhor. Father, Son, Holy Ghost é o nome do sucessor do clássico début dessa banda, sucessor que cumpriu a missão de não deixar a peteca cair. De forma mais robusta que no primeiro, Chris e Chet exploram uma infinidade de referências da cultura pop e do rock para montarem um álbum coeso que serve como uma lição do que de melhor já foi feito na música popular ocidental de língua inglesa nos últimos 60 anos. Como ponto de giro essencial entre Album e Father, Son, Holy Ghost, encontramos a aproximação perfeita com o rock clássico e pesado dos anos 70, dosada com gotas de progressivo e com um pé no R&B norte-americano, o qual é posto para fora através dos excelentes vocais de apoio que estão presentes durante o álbum inteiro e que ganham destaque nos pontos altos do cd – como a épica subida final de Vomit. Mas apenas juntar referências de tempos passados e produzir um grande álbum é tarefa comum. O salto de mestre do Girls é conseguir montar essa colagem dando um ar de novo para a velha roupa colorida. Através de melodias inovadoras, simples e criativas, reinventam elementos clássicos e os colocam à venda para uma geração que não tem mais saco para ouvir repetições do passado. Tornam acessível e com aparência descolada uma linguagem musical que parecia longe do meio alternativo. Christopher Owens é o místico que encontrou o elo perdido. Father, Son, Holy Ghost é a transcendência de Chris para um patamar além daquele que se encontram seus contemporâneos.

Destaques: Vomit, My Ma e Jamie Marie

Confira a lista completa no link abaixo!

http://www.lastfm.com.br/user/carecavasco/journal/2011/12/30/59mhrp_top_%C3%A1lbuns_-_2011

É isso, que o ano que vem seja tão bom quanto esse! Boas festas e muita música para todxs!!

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2011 em 11! (3º terço)

Ano chegando ao fim e temos o último 2011 em 11! Para finalizar o que começou aqui 2011 em 11! (1º terço) e andou por aqui 2011 em 11! (2º terço).

Girls – Vomit

Los Campesinos! – To Tundra

M83 – Midnight City

Youth Lagoon – Cannons

The Horrors – Still Life

Twerps – Dreaming

Ty Segall – You Make The Sun Fry

Idaho – Space Between

Atlas Sound – Angel Is Broken

St. Vincent – Cruel

Wild Palms – Delight In Temptation

Fiquem ligadxs que em breve sai o top álbuns do ano com aquele resumão básico do que rolou de bom nesse nosso querido 2011!

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No Fone #3

Depois de um breve intervalo, mais no fone no ar! Como é o último do ano, só álbuns de 2011 pra galere!

Los Campesinos! – Hello Sadness

Acho que vocês vão me ver falando desse álbum em breve. Provavelmente ele irá constar no meu top 10 anual. E o mais paradoxal é que o cd anterior de Los Campesinos!, Romance is Boring, é, na minha opinião, melhor do que Hello Sadness e mesmo assim não figurou no meu listão dos 20 melhores do ano passado (apenas 31ª posição!). O que leva a tal fato? Não sei, talvez a continuidade delitiva que só eles conseguem de lançar dois álbuns fodas em um curto espaço de tempo, em que o segundo trabalho sempre reforça e amplia o primeiro; ou talvez seja a nova tomada de rumos que a banda adotou; ou simplesmente as letras apaixonantes e tristes que saem em músicas que banham na melhor fonte do indie-pop. Talvez. Se jogando em um grande talvez, o “novo” Los Campesinos!, com seus novos integrantes, parece querer se jogar em uma nova fase, mais intimista e menos power-pop, mas com a mesma qualidade de tudo já feito até então.

Generationals – Actor-Caster

Caras, sei lá, essa vida é uma merda mesmo. Eu fico pensando o tanto de álbuns como Actor-Caster eu devo deixar passar por aí. Quantos álbuns que podem fazer o sol brilhar mais forte naquele dia de merda que você não queria sair da cama por motivo nenhum. Quantos álbuns, que serão esquecidos em um futuro nem um pouco distante, passam e não dançamos sob o brilho de suas músicas. Actor-Caster não vai figurar em nenhuma lista de melhores do ano, muito menos será destaque em algum blog hipster que sua vó segue com assiduidade. Não. Confesso que esse álbum foi parar no meu ipod por um daqueles acasos que o last.fm nos proporciona. Vi a banda em um perfil perdido, entrei na página deles e curti a fotinha (uauu, que pessoas estilosas. Baixarei). Actor-Caster é isso. O acaso perdido em forma de música. Sem pretensões. Apenas dance e seja feliz ao som de guitarras em looping quase eternos, refrões inesquecíveis e aquele eletrônico característico do indie-pop que nós amamos todos os dias.

*A foto à qual eu me referia era da “banda”, que consiste em um duo, e outras meninas para lá de elegantes. Achei que era um quinteto. Manjei legal, eim. HEHE

Idaho – You Were a Dick

Slow core é uma coisa chorável. Baterias tacanhamente perfeitas e tocadas como tapinhas na bunda de nenéns, letras que te fazem cuspir emoção pelos olhos e guitarras deliciosamente lentas como aquele último pedaço de torta de amoras que você deixa por último. Se você escuta música como se sempre estivesse em uma hipercorrida no parque levando os batimentos a mil por hora, esqueça, definitivamente You Were a Dick não é para você. Introspectivo e para uma tarde chuvosa de domingo enquanto você dirige o seu carro de volta para casa depois de uma decepção daquelas. Com pianos acompanhados de uma leve percussão que se dissolve no ar, as músicas são recheadas de sofrimento, de perspectivas desencontradas e de um amor bucólico por coisas cruelmente simples da vida. Idaho nos diz pouco quando tudo vai bem, mas faz completamente sentido quando os dias escurecem e o que nos resta é esperar. Esperar devagar.

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Lamental

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Hoje é dia de festa. Finalmente saiu o line-up do Lolla Brasil. Muita gente comemorando e o bafafa rolando a solta nas mídias sociais. Cada um puxando sardinha para sua banda preferida e os haters já postos para destilar ódio elegante e suave no ar. Mas será que há motivos para tanta alegria mesmo? Falando sério, acho que não.

Que o Lolla é o primo pobre do Glastonbury e do Coachella, já estamos cansados de saber. Que ele vem perdendo espaço até para festivais menores, como o Pitchfork Festival, também não é novidade para ninguém. Mesmo assim o festival lá nos Estados Unidos bomba, tem uma história do caralho e faz jus ao fato de estar no rol dos grandes festivais de música da atualidade. Levando isso em conta, eu juro que pensei que alguma coisa decente e sem falcatrua muleke doido fosse aportar aqui no Brasil, até porque o Lolla Chile ano passado foi bem razoável e era o primeiro longe da yankada.

Ingenuidade. Ledo engano. Burrice. Estupidez. Sensação de mais do mesmo no coração partido. Não, como de praxe, a galera aporta aqui no Brasil pra descer o sarrafo, pegar nossas dilmas (R$) e fazer um festival meia-boca no migué. “Ah, mas você tá reclamando de boca cheia. Tem que aproveitar a oportunidade e ir lá ver as bandas que tu ama, veio.” Ok, man, mas isso não anula o fato de que esse Lolla Brasil é extremamente lamentável.

Primeiro é a bandidagem de dividir o festival em dois dias, sendo que temos bandas para fazer tudo em um único dia e de forma filé, sem correria e palavreado de baixo calão mandando essa porra funcionar. Tira algumas bandas que ninguém faz questão de ver (Plebe Rude, meus caríssimos, Plebe Rude? Faltou só o Dinho Sticky Ouro Sticky Preto) e da um up-grade na estrutura e todo mundo fica feliz. Mas eles querem é arrancar mais algumas lulas dos nosso bolsos, sabendo que muita gente vai querer ir nos dois dias porque gosta de bandas que irão tocar nas duas datas.

Decorrendo do primeiro ponto, temos esse line-up minúsculo de bandas “grandes”, mais broxante que pirocópeto de bêbado inconveniente na hora da transa. Parece que eles ficaram “gaaah, temos que trazer Foo Fighters….Foo Fighters….. e Arctic …. Arctic…. yeessss, conseguimos….opa, e o resto?” e esqueceram que o Lolla é um festival que tem uma certa reputação e que deveria zelar pelo nome. Daí saíram catando bandas por aí para fecharem um line-up médio para bom.

Por último e mais importante, que serve como qualificadora dos crimes acima citados, temos o preço. É um festival, meus caríssimos, e eu, sinceramente, esperava economizar um trocados para ver, juntas, algumas bandas que curto. Mas isso vai ficar, pelo menos em parte, apenas no plano dos sonhos impossíveis.

Vale a pena? Sei lá. Se você ama Foo Fighters (blergh), por que não pagar o preço e ver de quebra outras bandas? Eu tenho paixonite por Band of Horses e Arctic (menoridade feelings que me faz anular o fato de que eles, provavelmente, irão fazer um show de merda, como sempre fazem) e devo ir para curtir louco na pista outras coisas (imagina a night pegando fogo com o show do Foster? Eim, eim…), mas que esse festival é um verdadeiro assalto irresponsável, ah, isso não tem como negar.

ps: tem amigo meu que usa uma lógica bizarra para a venda de carros aqui no Brasil. Eles dizem que o carro é caro aqui porque brasileiro é trouxa o suficiente para pagar qualquer preço. Mas vendo o caso desse festival, será que eles estão tão errados assim? ou será que sempre querem se dar bem às nossas custas?

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#1 L’Album: Death Cab For Cutie – Plans

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Eu já estava matutando tem algum tempo sobre esse post. Um álbum. Algum álbum que definisse parte de minha vida e que fosse representativo para iniciar uma lista de cds que fossem importantes para alguma parte da história da música, ainda que seja música sucata. Pensei. Pensei em Silent Alarm do Bloc Party, por toda sua identidade, a qual mistura o melhor do indie da última década com o eletrônico e o post-punk no meu álbum da década passada; pensei em Is This It do Strokes, álbum que possui as músicas que nos fizeram usar calça skinny, camisas pp e roupas descoladas com ar de contestador e que está fazendo 10 anos; pensei em Menomena com Friend and Foe, meu álbum preferido de todo o sempre, o qual carrega um ar de desconstrutor justamente por pegar o indie mainstream e aplicá-lo a um experimentalismo único com doses de jazz e progressivo; ainda pensei em Pet Sounds dos Beach Boys, álbum paradigmático que me fez abrir os sentidos para a música.

Não, nenhum desses. Talvez os últimos dias acabaram mudando a minha opinião. Talvez os últimos dias clarearam algo que estava travando esse post. Talvez os últimos dias foram uma junção de fatos que mostraram como alguns aspectos da minha vida são importantes para o que eu sou hoje. Um verdadeiro resgate histórico de partes do meu passado que ajudaram e ajudam a construir o que sinto e vivo hoje. E para isso existe um álbum. Um álbum que sintetiza os meus últimos anos e resgata retroativamente toda minha vida. Esse álbum é Plans do Death Cab For Cutie.

Plans, como todo álbum do DCFC, já começa nos tocando e emocionando com sua faixa introdutória Marching Bands of Manhattan. Devagar devagarzinho a música vai ganhando corpo até terminar em um único toque abrindo para Soul Meets Body, que é a principal radiofonia do cd. De construção e acompanhamento fáceis, a faixa nos convida para embarcar de vez no álbum. Quem não cantar o final é pelego é não merece um centésimo do dizimo indeano.

As músicas seguem. Baixos lascados e pegados e uma batera ritmada ao fim em Summer Skin. O piano mnemônico e a voz de Ben nos toca de vez em Different Names For The Same Thing. Não sei o que acontece, mas a parada, que nos leva a virada, é, para mim, a parte paradigmática desse álbum. Dali para frente, minha, tua e nossa vidas nunca mais serão como eram. Quem prestou, sabe. A repetição é só um efeito para te desprender sem traumas. Cada passo. Cada passo de cada vez.

A gagueira não para. E vem. Vem aquele violão iniciando em ré menor. Quem poderá esquecê-lo. É a música dos apaixonados dos 2000’s. É a música daqueles que foram emos com classe. Daqueles que não vestiram all-star surrados para ter direitos a chorar por amores perdidos e brigas com a mãe. IWFYITD é a música dos índios que procuraram alguma emoção nos letreiros de motel das rodovias. É a música daqueles que tiveram verdadeiros amores não mortificantes. É a música daqueles que amarão. Amarão em potência. Ainda que seja sempre em potência. Ainda que seja potência. Potência essa que persegue e abre possibilidades. Mas não fecha o amor não atingido. Mas porque não atingível?

Mais duas músicas. O álbum continua nos apaixonando. Mais duas músicas de uma sensibilidade única. Com caídas “pianizadas” e guitarras de fundo para acompanharem um vocal bem encaixado e dilacerante. You’ll be loved you’ll be love, like you never have known. Quem nunca cantou, retire-se.

Vem Crooked Teeth para alegrar nossos corações. Um pop antes do fim das nossas vidas em forma de álbum.

Vem What Sarah Said. O Death Cab mostra como um piano ajuda a construir uma puta bateria criativa. Ainda que repetitiva, ela conduz a música de uma forma singular e que nos penetra permanentemente. De uma forma que poucas baterias fizeram em todos os tempos. E isso é sério e se aplica para o álbum inteiro. Por, um quase, fim vem uma introdução de piano + bateria de quase um minuto e meio. Por analogia invertida, versos esparsos servem como explicação de uma relação mal-feita, ainda que perfeita. Dois amigos que viviam, ainda, como irmãos. Dois amigos que viviam, agora, como irmãos.

Stable Song. Letra genialmente simples. Simples genialmente. Simples. Genial. Delas nos resta dizer que não vamos ligar. Mas não vamos ligar para o quê? Difícil responder depois desse turbilhões de emoções…difícil responder depois que haverá a primeira de muitas repetições.

 

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